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Portugal no Mercado Europeu de Apostas: Comparação e Contexto

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Quando falo com colegas de outros países europeus sobre o mercado português, a primeira reação é sempre surpresa — não pelo tamanho, mas pela estrutura. Com uma receita bruta de 1.206 milhões de euros em 2025, Portugal é um mercado pequeno em termos absolutos. Mas a forma como está regulado, a carga fiscal sobre operadores, e a persistência do mercado ilegal fazem-no um caso de estudo interessante no panorama europeu.

O Mercado Europeu em Números

O mercado regulado europeu atingiu 123,4 mil milhões de euros em GGR — Gross Gaming Revenue — em 2024. É um número impressionante que coloca o jogo online entre as maiores indústrias de entretenimento do continente. Países como Reino Unido, Itália, França e Alemanha dominam em volume absoluto.

A penetração do jogo online varia dramaticamente. Em mercados maduros como o Reino Unido, a maioria dos apostadores já migrou para o online. Em mercados mais recentes como Portugal, o crescimento ainda é possível — embora os dados de 2025 sugiram que estamos a aproximar-nos da maturidade.

A tendência europeia é de regulamentação crescente. Países que tinham mercados em zona cinzenta estão a licenciar operadores. A UE não harmoniza a regulação do jogo — cada país tem o seu regime — mas a pressão para padrões mínimos de proteção do consumidor é constante.

Portugal no Ranking Europeu

Em termos de receita bruta absoluta, Portugal está na segunda metade da tabela europeia. Somos um país pequeno — 10 milhões de habitantes — e o mercado reflete essa dimensão. Mas em receita per capita ou em taxa de crescimento, a posição é mais favorável.

A nossa receita bruta de 1.206 milhões de euros traduz-se em cerca de 120 euros por habitante. Comparando com o Reino Unido ou Suécia, onde os valores são significativamente superiores, Portugal ainda tem espaço para crescer. A questão é se esse crescimento virá do mercado legal ou se o ilegal continuará a absorver a procura.

O contributo fiscal é significativo. Com IEJO a atingir 353 milhões de euros em 2025, o Estado português recebe uma fatia substancial da atividade. Isto é o dobro do que era há cinco anos. Independentemente de opiniões sobre o jogo, o setor contribui para as contas públicas.

Diferenças de Regulamentação na UE

A diversidade regulatória na Europa é enorme. O Reino Unido tem um dos regimes mais liberais — publicidade permitida, ampla variedade de operadores, poucas restrições de produto. A Noruega tem monopólio estatal. A Alemanha reformulou recentemente o seu regime com restrições significativas. Cada país é um caso.

Portugal situa-se num meio-termo. O mercado é aberto a operadores privados, mas a carga fiscal é elevada — os 8% sobre volume de apostas desportivas são dos mais altos da Europa. Isto explica porque alguns grandes operadores internacionais ainda não entraram no mercado ou saíram após tentativa inicial.

A proteção do consumidor em Portugal é razoável. Ferramentas de jogo responsável obrigatórias, verificação de identidade, limites de depósito — o essencial está lá. Mas a fiscalização da publicidade é mais branda do que noutros países, e o combate ao mercado ilegal tem sido insuficiente.

Tendências Europeias e o Futuro

A tendência europeia é clara: mais regulação, mais proteção ao consumidor, mais restrições à publicidade. Países que eram liberais estão a apertar. Países que eram restritivos mantêm-se assim. A era do oeste selvagem do jogo online na Europa está a terminar.

A consolidação de operadores é outra tendência. Grandes grupos compram operadores mais pequenos, criando conglomerados pan-europeus. Isto pode chegar a Portugal — alguns dos nossos operadores licenciados são subsidiárias de grupos maiores que podem decidir retirar-se se o mercado não for suficientemente rentável.

O mercado ilegal é problema em toda a Europa, não apenas em Portugal. Os nossos 40% de apostadores em plataformas não licenciadas são preocupantes, mas outros países enfrentam desafios semelhantes. A solução passa provavelmente por cooperação internacional — partilha de informação, bloqueios coordenados, pressão sobre meios de pagamento.

Para o apostador português, o contexto europeu importa menos do que a realidade local. As 18 entidades licenciadas pelo SRIJ oferecem opções suficientes. A questão é usar essas opções legais em vez de arriscar em operadores que operam fora de qualquer supervisão.

O Que Podemos Aprender de Outros Países

O Reino Unido mostra o que acontece num mercado muito liberal. A penetração do jogo é alta, os problemas de jogo também. As recentes restrições a publicidade e limites de stake em máquinas vieram depois de anos de crescimento descontrolado. Portugal pode aprender a equilibrar liberdade comercial com proteção antes de atingir esses extremos.

A Itália demonstra que proibir publicidade não elimina o jogo — apenas o torna menos visível. O mercado italiano continua forte apesar do “decreto dignidade” que baniu a publicidade. Os apostadores encontram os operadores de qualquer forma. A questão é se encontram os legais ou os ilegais.

A Espanha tem regime semelhante ao português mas com restrições de publicidade mais severas. Os horários proibidos e limites de bónus são mais estritos. Ainda é cedo para avaliar os resultados, mas o mercado espanhol continua a crescer — sugerindo que restrições moderadas não destroem a indústria.

Da experiência europeia, a lição mais clara é que não há solução perfeita. Cada regime tem trade-offs. O que funciona num país pode não funcionar noutro. Portugal terá de encontrar o seu equilíbrio próprio, aprendendo com os sucessos e erros dos vizinhos.

A Questão da Competitividade Fiscal

A carga fiscal portuguesa é das mais elevadas da Europa. Os 8% sobre volume de apostas desportivas colocam Portugal entre os países menos atrativos para operadores. Isto tem consequências: alguns operadores optam por não entrar no mercado, e os que estão podem oferecer odds menos competitivas para compensar a carga.

O argumento para impostos elevados é simples: o jogo gera custos sociais — tratamento de dependência, problemas financeiros, impacto em famílias — e quem lucra deve contribuir para mitigá-los. Os 353 milhões de euros de IEJO arrecadados em 2025 representam contribuição significativa para os cofres públicos.

O contra-argumento é que impostos elevados favorecem o mercado ilegal. Se as odds legais são menos atrativas por causa dos impostos, os apostadores migram para operadores não tributados. O Estado perde receita, os consumidores perdem proteção, e só os ilegais ganham.

O equilíbrio ideal provavelmente está algures no meio. Impostos suficientes para gerar receita e cobrir custos sociais, mas não tão elevados que tornem o mercado legal não competitivo. Encontrar este ponto é desafio para qualquer legislador.

O Futuro do Mercado Europeu

A tendência europeia aponta para mais harmonização regulatória. A Comissão Europeia tem pressionado por standards mínimos comuns, especialmente em proteção do consumidor e combate ao branqueamento de capitais. Portugal terá de adaptar-se a estas pressões, gostando ou não.

Portugal, no contexto europeu, é um mercado pequeno mas não irrelevante. Os operadores que aqui investem fazem-no a sério, o regulador funciona, e os consumidores têm proteções reais. Se conseguirmos reduzir a fatia de 40% no mercado ilegal, seremos exemplo de como um país de média dimensão pode ter um mercado de jogo online funcional e equilibrado. Se não conseguirmos, seremos mais um caso de estudo sobre os limites da regulação nacional num mundo digital sem fronteiras.

Portugal está bem posicionado na Europa?
Em termos absolutos, somos um mercado pequeno devido à dimensão do país. Em termos de maturidade regulatória e crescimento, Portugal está bem posicionado. O regime de licenciamento funciona, a proteção do consumidor existe, e o mercado tem espaço para crescer. O desafio é reduzir o mercado ilegal.
Os operadores europeus podem atuar em Portugal?
Apenas com licença do SRIJ. Operadores europeus sem licença portuguesa não podem legalmente aceitar apostadores residentes em Portugal. Alguns operadores pan-europeus obtiveram licença portuguesa; outros optaram por não entrar no mercado devido à carga fiscal ou dimensão limitada.