O número assustou-me quando o vi pela primeira vez: 16% dos jovens de 18 anos em Portugal apostam online. São dados do estudo do Dia da Defesa Nacional de 2024, a fonte mais fiável que temos sobre comportamentos desta faixa etária. Não são adultos a meio da vida a gerir um passatempo — são jovens que mal atingiram a maioridade legal, muitos deles a apostar antes sequer de terem o primeiro emprego.
Os Números: Quantos Jovens Apostam
O estudo ECATD-CAD de 2024 revelou que 18% dos jovens entre 13 e 18 anos jogaram a dinheiro no último ano. Estamos a falar de menores — pessoas que legalmente não podem abrir conta em nenhum operador licenciado. Entre os mais jovens que apostam em plataformas ilegais, 43% fazem-no sem saber que estão fora do mercado regulado.
Estes números têm contexto. Os jovens cresceram com telemóveis, redes sociais, e publicidade constante a apostas. Os influenciadores que seguem promovem operadores — frequentemente ilegais — como se fossem qualquer outro produto. A normalização do jogo aconteceu de forma gradual mas profunda. Apostar tornou-se tão comum como jogar videojogos.
Joana Teixeira, presidente do ICAD, alertou que nem toda a população está sujeita a desenvolver um quadro patológico de utilização de jogo, mas para quem tem esta propensão, a publicidade aumenta o risco de jogar. Os jovens são particularmente vulneráveis — o cérebro ainda em desenvolvimento é mais suscetível a comportamentos impulsivos e a mecanismos de recompensa imediata.
O número de utentes em tratamento por problemas de jogo passou de 358 em 2023 para 548 em 2024 — um aumento de mais de 50%. Embora não haja discriminação por idade nestes dados, profissionais de saúde reportam uma presença crescente de jovens adultos nos serviços especializados.
Riscos Específicos para Jovens Apostadores
Os jovens enfrentam riscos que os adultos não têm — ou têm em menor grau. O primeiro é financeiro: apostam dinheiro que não têm. Sem rendimentos próprios, recorrem a mesadas, empréstimos de amigos, ou pior — crédito fácil que os perseguirá durante anos. Uma dívida de jogo aos 19 anos pode hipotecar uma década inteira.
O segundo risco é desenvolvimental. O cérebro humano só completa a maturação por volta dos 25 anos. As áreas responsáveis pelo controlo de impulsos e avaliação de risco são as últimas a desenvolver-se completamente. Um jovem de 18 anos é literalmente menos capaz de avaliar consequências do que será aos 28. Expô-lo a um ambiente de recompensa variável — que é exatamente o que as apostas são — pode criar padrões de comportamento difíceis de quebrar.
A socialização em torno do jogo também preocupa. Grupos de amigos que apostam juntos criam pressão social para continuar. Ganhar uma aposta torna-te momentaneamente o herói do grupo. Perder é vergonhoso, o que leva a esconder perdas e a apostar mais para recuperar. Este ciclo é particularmente intenso em idades onde a aprovação dos pares é central à identidade.
Estratégias de Prevenção
A prevenção começa antes da primeira aposta. Educação financeira nas escolas — não apenas sobre poupar, mas sobre probabilidades, risco, e como funcionam os mecanismos de jogo — deveria ser obrigatória. Os jovens precisam de entender que as odds estão sempre contra eles, que os operadores lucram matematicamente, e que as histórias de ganhos grandes são exceções estatísticas.
Os operadores licenciados têm obrigações legais. Verificação de idade rigorosa, proibição de publicidade dirigida a menores, e ferramentas de jogo responsável acessíveis. O problema é que estas proteções não existem nos operadores ilegais — precisamente onde muitos jovens começam a apostar.
A regulação da publicidade é um campo de batalha. Associações de consumidores e profissionais de saúde pedem restrições mais severas — horários proibidos, proibição de embaixadores desportivos, limites aos bónus promocionais. O setor argumenta que restrições excessivas apenas empurram mais utilizadores para o mercado ilegal.
O Papel dos Pais e Educadores
Os pais frequentemente não sabem que os filhos apostam. O telemóvel é privado, as apps são discretas, e os jovens são hábeis a esconder comportamentos. O primeiro sinal muitas vezes é uma crise — pedidos de dinheiro estranhos, mudanças de humor, secretismo excessivo.
A conversa sobre apostas deveria acontecer antes de ser necessária. Explicar como funcionam as probabilidades, porque os operadores são empresas que precisam de lucrar, e que as histórias de vitórias grandes são marketing. Sem moralizar — os jovens rejeitam sermões — mas com factos e exemplos concretos.
Os educadores têm um papel complementar. Literacia financeira e mediática devem incluir módulos sobre jogo. Ensinar a reconhecer publicidade disfarçada, a questionar promessas de dinheiro fácil, e a entender que influenciadores são pagos para promover produtos — incluindo casas de apostas ilegais.
Sinais de Alerta nos Jovens
Há sinais que pais e educadores devem conhecer. Pedidos frequentes de dinheiro sem justificação clara, venda de objetos pessoais, ou empréstimos a amigos são indicadores financeiros. Mudanças de humor súbitas — euforia seguida de depressão — podem refletir ciclos de ganho e perda. Isolamento, queda de rendimento escolar, e alterações de sono também merecem atenção.
O secretismo com o telemóvel é particularmente relevante. Um jovem que esconde o ecrã, que se irrita quando questionado sobre o que está a fazer, ou que passa horas em apps que não explica pode estar a apostar. Não significa que esteja — mas justifica uma conversa aberta e sem julgamento.
A intervenção precoce faz diferença. Um problema identificado aos 18 anos é mais fácil de resolver do que um identificado aos 25 com dívidas acumuladas e padrões enraizados. Se suspeitares de um problema, não esperes que se resolva sozinho — procura ajuda profissional através da linha de apoio ou do médico de família.
